Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa

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Fernando Pessoa, no seu Poema em Linha Reta fez uma crítica social de forma irônica porque percebia as mazelas da sociedade de sua época. Mas, o poema continua atual e cai como uma luva na nossa sociedade contemporânea.

 

Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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Poema “Sob o Trópico de Câncer” de Vinicius de Moraes

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Outra obra prima na poesia de Vinicius de Moraes. O poema Sob o Trópico de Câncer foi publicado no jornal O Pasquim em 13/05/1970.

 

Sob o Trópico de Câncer

Epígrafe: “O câncer é a tristeza das células — (Jayme Ovalle)”.

 

I

Sai, Câncer
Desaparece, parte, sai do mundo
Volta à galáxia onde fermentam
Os íncubos da vida, de que és
A forma inversa. Vai, foge do mundo
Monstruosa tarântula, hediondo
Caranguejo incolor, fétida anêmona
Carnívora! Sai, Câncer.
Furbo anão de unhas sujas e roídas
Monstrengo sub-reptício, glabro homúnculo
Que empestas as brancas madrugadas
Com teu suave mau cheiro de necrose
Enquanto largas sob as portas
Teus sebentos volantes genocidas
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de matéria plástica
Tu e tuas galochas
Tu e tua gravata carcomida
E torna, abjeto, ao Trópico
Cujo nome roubaste. Deixa os homens em sossego
Odioso mascate; fecha o zíper
De tua gorda pasta que amontoa
Caranguejos, baratas, sapos, lesmas
Movendo-se em seu visgo, em meio a amostras
De óleo, graxas, corantes, germicidas,
Sai, Câncer
Fecha a tenaz e diz adeus à Terra
Em saudação fascista; galga, aranha,
Contra o teu próprio fio
E vai morrer de tua própria síntese
Na poeira atômica que se acumula na cúpula do mundo.
Adeus.
Grumo louco, multiplicador incalculável, tu
De quem nenhum Cérebro Eletrônico poderá jamais seguir a matemática.
Parte, poneta ahuera, andate via
Glauco espectro, gosmento camelô
Da morte anterior à eternidade.
Não és mais forte do que o homem — rua!
Grasso e gomalinado camelô, que prescreves
A dívida humana sem aviso prévio, ignóbil
Meirinho, Câncer, vil tristeza…
Amada, fecha a porta, corta os fios,
Não preste nunca ouvidos ao que o mercador contar!

 

II

Cordis sinistra
— Ora pro nobis
Tabis dorsalis
— Ora pro nobis
Marasmus phthisis
— Ora pro nobis
Delirium tremens
— Ora pro nobis
Fluxus cruentum
— Ora pro nobis
Apoplexia parva
— Ora pro nobis
Lues venérea
— Ora pro nobis
Entesia tetanus
— Ora pro nobis
Saltus viti
— Ora pro nobis
Astralis sideratus
— Ora pro nobis
Morbus attonitus
— Ora pro nobis
Mama universalis
— Ora pro nobis
Cholera morbus
— Ora pro nobis
Vomitus cruentus
— Ora pro nobis
Empresma carditis
— Ora pro nobis
Fellis suffusio
— Ora pro nobis
Phallorrhoea virulenta
— Ora pro nobis
Gutta serena
— Ora pro nobis
Angina canina
— Ora pro nobis
Lepra leontina
— Ora pro nobis
Lupus vorax
— Ora pro nobis
Tônus trismus
— Ora pro nobis
Angina pectoria
— Ora pro nobis
Et libera nobis omnia Câncer
— Amém.

 

III

Há 1 célula em mim que quer respirar e não pode
Há 2 células em mim que querem respirar e não podem
Há 4 células em mim que querem respirar e não podem
Há 16 células em mim que querem respirar e não podem
Há 256 células em mim que quer respirar e não podem
Há 65.536 células em mim que querem respirar e não podem
Há 4.294.967.296 células em mim que quer respirar e não podem
Há 18.446.744.073.709.551.616 células em mim que querem respirar e não podem
Há 340.282.366.920.938.463.374.607.431.768.211.456 células em mim que querem respirar e não podem.

 

IV

— Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que seu marido é portador de um tumor maligno no fígado…
— Meu caro senhor, tenho que comunicar-lhe que sua esposa terá que operar-se de uma neoplastia do útero…
— É, infelizmente a biopsia revela um osteo-sarcoma no menino. É impossível prever…
— É a dura realidade, meu amigo. Sua mãe…
— Seu pai ainda é um homem forte, vai agüentar bem a intervenção…
— Sua avó está muito velhinha, mas nós faremos o possível…
— Veja você… E é cancerologista…
— Coitado, não tinha onde cair morto. E logo câncer…
— Há muito operário que morre de câncer. Mas câncer de pobre não tem vez…
— Era nosso melhor piloto. Mas o câncer de intestino não perdoa…
— Qual o que, meu caro, não se assuste prematuramente. Câncer não dá em deputado…
— Parece que o General está com câncer…
— Tão boa atriz… E depois, tão linda…
— Que coisa! O Governador parecia tão bem disposto…
— Se for câncer, o Presidente não termina o mandato…
— Não me diga? O Rei…
— Mentira… O Papa?…
— E atenção para a última notícia. Estamos ligados com a Interplat 666…
— DEUS ESTÁ COM CÂNCER.

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Biografia e frases de Nelson Rodrigues

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Quando Nelson Rodrigues tinha quatro anos de idade, uma vizinha invadiu a casa dele e disse para sua mãe: “Todos os seus filhos podem frequentar a minha casa, menos o Nelson”. A razão da proibição? Ela vira Nelson aos beijos com sua filha, de apenas três anos, com ele sobre ela, numa atitude assim, assim… “Tarado!”.

Aos oito anos, participou de um concurso de redação. A melhor seria lida na classe. A professora ficou horrorizada com a do menino Nelson. Era uma história de adultério. A redação, apesar do espanto causado, não tinha como ser premiada. A professora inventou um empate e leu a outra composição.

Na redação do jornal “O Globo”, Nelson era chamado de “filósofo” pelos colegas. Ele tinha uma aparência desleixada, um só terno e não vestia meias.

Aos 21 anos, arrancou todos os dentes e pôs uma dentadura por causa de um diagnóstico errado do médico. Nelson apresentava uma febre insistente, que era já o primeiro sintoma da tuberculose. O tal médico fez como era comum naquela época: colocou a culpa nos dentes e os arrancou numa tentativa de debelar a febre.

 

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Biografia e frases de Maquiavel

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Nicolau Maquiavel foi um Italiano famoso da época do Renascimento. Filho de pais pobres, Maquiavel desde cedo se interessou pelos estudos. Tornou-se um importante historiador, diplomata, poeta, músico, filósofo e político italiano. Viveu durante o governo de Lourenço de Médici. Sua educação, porém, foi fraca quando comparada com a de outros humanistas, devido aos poucos recursos de sua família.

 

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Biografia e frases de Chaplin

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Charles Chaplin tem uma vida sentimental intensa casa-se quatro vezes, as três primeiras com estrelas do cinema. Com 54 anos, conhece a filha do teatrólogo irlandês Eugene O’Neill, Oona, de 18 anos, que se torna sua quarta mulher e com quem vive até o fim da vida, tendo seis filhos. Perseguido pelo macarthismo, muda-se em 1952 para Corsier sur Vevey, na Suíça.

 

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Biografia e frases de Schopenhauer

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Alguns eventos marcantes na vida de Schopenhauer fizeram com que o jovem filósofo tivesse dificuldades para se relacionar com as pessoas e desenvolvesse uma personalidade um tanto quanto pessimista e isso levou o pensador a preencher esse vazio com animais de estimação.

Schopenhauer elegeu os poodles como seus companheiros, sendo que a obsessão pelos cães começou na infância e o acompanhou até sua morte. Dessa maneira, o filósofo colecionava poodles que, curiosamente, tinham sempre o mesmo nome. Atma é uma palavra hindu que significa “eu interior” ou “alma transcendental” e foi o nome escolhido para os cães, já que o filósofo acreditava que todos aqueles animais expressavam a grandeza de um só ser.

 

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Biografia e frases de Churchill

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Os americanos consagraram um inglês, Winston Churchill, como o Homem do Século. Durante 65 anos, Winston Churchill esteve no epicentro das maiores crises mundiais, ora comandando o império britânico, ora derrotando o nazismo. Também homem de letras, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Em 1941, o Presidente Roosevelt garantiu a Churchill a total colaboração dos americanos. Em dezembro de 41, o ataque japonês a Pearl Harbor obrigou os americanos a entrarem na guerra. Churchill foi o arquiteto da aliança vitoriosa entre a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a União Soviética. Para derrotar Hitler, todos os aliados são bem-vindos, mesmo os bolcheviques. O optimismo de Churchill e sua espantosa energia animaram e serviram de inspiração aos ingleses. Mas, à medida em que mais próxima parecia a derrota de Hitler, outra sombra parecia erguer-se sobre a Europa. Churchill, ao contrário de Roosevelt, nunca confiou em Stalin. Na opinião de Churchill, a Conferência de Yalta, em 4 de fevereiro de 1945, foi um fracasso total. Stalin não pretendia restabelecer a democracia nos territórios libertados pelo Exército Vermelho. Em 7 de maio de 1945, os alemães assinavam sua rendição incondicional.

Depois de anunciar a vitória dos Aliados, Churchill foi a Potsdam, na Alemanha, em julho de 1945, para uma conferência com Truman – então presidente dos Estados Unidos – e Stalin. Foi lá que soube de sua derrota eleitoral. Abandonando o herói dos tempos difíceis, o povo inglês havia preferido entregar aos trabalhistas a enorme tarefa da reconstrução nacional. Churchill aceitou o veredicto, declarando que esta era a lei da democracia que ele havia defendido durante seis longos anos.

Fiel ao seu destino, tornou-se líder da oposição e foi coerente sempre. Foi o primeiro a perceber que uma cortina de ferro começava a separar a Europa em dois mundos. Reeleito primeiro-ministro em 1951, renunciou ao cargo quatro anos mais tarde, mas conservou o lugar que tinha na Câmara dos Comuns, até completar 90 anos.

 

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Poema Balada do Mangue de Vinicius de Moraes

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Vinicius de Moraes escreveu o poema Balada do Mangue em Oxford no ano de 1946 e na minha opinião pessoal é um dos grandes poemas alguma vez escritos por um brasileiro.

O poema Balada do Mangue não está divido da forma como eu coloquei aqui. Vamos dizer que eu coloquei alguns espaços no poema para facilitar a leitura, deixo claro que não são estrofes. Originalmente o poema Balada do Mangue não tem estrofes.

 

Balada do Mangue

Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!

Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Lœlia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor.

Sois frágeis, desmilingüidas
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé,

Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?

No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor

E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu…

Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes,
Fazeis rapazes entrar!

Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar

Ó misericordiosas!
Glabras, glúteas caftinas
Embebidas em jasmim
Jogando cantos felizes
Em perspectivas sem fim

Cantais, maternais hienas
Canções de caftinizar
Gordas polacas serenas
Sempre prestes a chorar.

Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos heróis!

E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!

Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!

Louras mulatas francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?

Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?

Por que não vos trucidais
Ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!

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