Poema Balada do Mangue de Vinicius de Moraes

Poema Balada do Mangue de Vinicius de Moraes

Categorias: Poemas
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Vinicius de Moraes escreveu o poema Balada do Mangue em Oxford no ano de 1946 e na minha opinião pessoal é um dos grandes poemas alguma vez escritos por um brasileiro.

O poema Balada do Mangue não está divido da forma como eu coloquei aqui. Vamos dizer que eu coloquei alguns espaços no poema para facilitar a leitura, deixo claro que não são estrofes. Originalmente o poema Balada do Mangue não tem estrofes.

 

Balada do Mangue

Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!

Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Lœlia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor.

Sois frágeis, desmilingüidas
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé,

Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?

No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor

E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu…

Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes,
Fazeis rapazes entrar!

Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar

Ó misericordiosas!
Glabras, glúteas caftinas
Embebidas em jasmim
Jogando cantos felizes
Em perspectivas sem fim

Cantais, maternais hienas
Canções de caftinizar
Gordas polacas serenas
Sempre prestes a chorar.

Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos heróis!

E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!

Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!

Louras mulatas francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?

Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?

Por que não vos trucidais
Ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!

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