Crítica de cinema de Vinicius de Moraes

Crítica de cinema de Vinicius de Moraes

Para Dorothy Lamour tudo, até o tecnicolor, é permitido, mas só para ela…

Então, você sabia que o poetinha também era crítico de cinema? Em suas críticas Vinicius de Moraes usava uma linguagem gostosa, quase poética, e mesmo quem não viu o filme sente prazer em ler o texto da crítica, cheio de estilo, cheio da alma do poeta.

Veja a linda crônica Recado de Primavera, escrita por Rubem Braga para Vinicius de Moraes.

Crítica de Vinicius de Moraes para o filme A Favorita dos Deuses, com Dorothy Lamour

10 de Setembro de 1945

Quem é? É claro que é Dorothy Lamour. Não só dos deuses, mas das forças armadas americanas, e de muito paisano também que anda por aí, entre os quais modestamente me coloco. Por quê? Vai-se lá saber a razão dessas coisas…

Pode-se dizer que seja uma grande atriz? Nunca. Trata-se de uma reconhecida beleza? De modo algum. Tem o nariz mais deliciosamente amassado da criação. A boca mais capitosamente desmanchada que uma morena pode ter. Está inclusive engordando um pouco, com certeza porque gosta muito de comer.

Que se há de fazer… No entanto Dorothy aparece e a gente entrega os pontos. É uma coisa saudável que ela tem, não sei…

Confesso a minha fraqueza diante dessa morocha fabulosa, que nada tem a ver com o cinema. Diante dela anula-se o meu senso crítico. Ela é quem dirige a fita, faz o roteiro, monta a película, distribui a produção…

E força é confessar que é uma das mulheres mais burras que já nasceram. Tudo nela transpira uma santa, sólida burrice. Faz as coisas com um certo desajeitamento, uma certa preguiça, uma completa falta de critério. Mas a verdade é que é muito bom.

Dorothy Lamour canta, e parece ter luar na garganta, e sua voz é como uma pétala de rosa crestada. Ela conquista a gente por círculos, por círculos cada vez mais envolventes.

Sua figura geométrica é a espiral. Se eu a tivesse que comparar a alguma coisa no mundo animal a compararia a uma gata. No mundo vegetal a uma rosa.

Se ela fosse fruta seria manga, se fosse legume seria pimentão. Se ela fosse coisa seria poltrona estufada, cômoda antiga, colchão Hollywood de molas.

Se ela fosse instrumento seria viola, talvez violão, ou quem sabe violoncelo… Nunca violino.

Se fosse livro, seria livro encadernado a couro bem macio, nunca brochura. Se fosse letra seria a letra D que é Dorothy, e reparem como parece com ela.

Dorothy Lamour tem direito a aparecer até em tecnicolor.

Seu elemento são os lagos azuis para jogos aquáticos, as celebrações rituais onde ela dança em movimentos ofídicos entre bandejas de cocos, bananas, uvas e maçãs supercoloridas, vestida de sarongue estampado.

Para Dorothy Lamour tudo, até o tecnicolor, é permitido, mas só para ela.

Por isso, nem vale a pena criticar um filme seu, porque todo mundo vai mesmo. E aqui entre nós, faz muito bem.

Fim da crítica de cinema de Vinicius de Moraes para o filme A Favorita dos Deuses com Dorothy Lamour.

Veja o Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa.

Filme a favorita dos deuses
Cartaz do filme A Favorita dos Deuses de 1945, com Dorothy Lamour

Sobre a crítica de cinema de Vinicius de Moraes

Preciso esclarecer que naquele tempo as críticas de cinema de Vinicius de Moraes eram contra o cinema em cores, o tecnicolor. Isso foi comum naquela época e vários críticos defendiam a posição de que o cinema deveria ser em preto e brando. Qualquer coisa além disso era o populismo e a vulgaridade atacando.

Pouco antes de 45, alguns críticos também diziam que o cinema deveria ser mudo, e diziam horrores do cinema falado.

Veja a crônica de Vinicius de Moraes A Asa do Arcanjo.

Mas Vinicius de Moraes, em sua crítica a um filme de uma bela atriz, soube abrir uma exceção: Para Dorothy Lamour tudo, até o tecnicolor, é permitido, mas só para ela.

Dorothy Lamour
Dorothy Lamour

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Veja o genial poema de Vinicius de Moraes, Balada do Mangue.

Veja a crônica de Vinicius de Moraes A Asa do Arcanjo.

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