Crônica de Vinicius de Moraes – Uma Mulher Chamada Guitarra

Crônica de Vinicius de Moraes – Uma Mulher Chamada Guitarra

Conheça essa divertida crônica de Vinicius de Moraes, que nasceu em 1913 e morreu em 1980, foi uma das pessoas mais marcantes na cultura brasileira do século XX.

Hoje, quase quarenta anos depois de sua morte, a importância de Vinicius de Moraes não para de crescer.

Veja a linda crônica Recado de Primavera, escrita por Rubem Braga para Vinicius de Moraes.

Cronista consagrado na imprensa, dramaturgo, compositor, amante da beleza, da mulher e da natureza, Vinicius de Moraes é amado, cantado e declamado por milhões de pessoas que ainda se deslumbram com a qualidade e a beleza da obra do poetinha.

Na crônica de Vinicius de Moraes, Uma Mulher Chamada Guitarra, ele faz uma homenagem muito bem humorada a mulher e ao violão, com a comparação entre essas duas paixões que certamente estavam entre as maiores na vida do poetinha!

Veja o genial poema de Vinicius de Moraes, Balada do Mangue.

Veja agora essa bela crônica de Vinicius de Moraes.

Uma Mulher Chamada Guitarra

Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era “a música em forma de mulher“. A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d’esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.

0 violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina — viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo — o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.

Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em benefício de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.

Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer “passado na cara” por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.

Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d’amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas… Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.

Ponha-se num céu alto uma Lua tranquila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranquila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

Fim da crônica de Vinicius de Moraes.

Veja a crônica de Vinicius de Moraes A Asa do Arcanjo.

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Ele tinha um dom que ainda não foi igualado, e eu já desisti de esperar outro que o alcance. Só quem conheceu a obra de Vinicius de Moraes é capaz de saber o seu real significado para a cultura da língua portuguesa.

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Veja o Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa.

 

crônica de Vinicius de Moraes
Frase da crônica de Vinicius de Moraes

Veja o genial poema de Vinicius de Moraes, Balada do Mangue.

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