Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa

Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da língua portuguesa, no seu genial Poema em Linha Reta fez uma crítica social de forma muito irônica ao seu tempo.

Mas, o poema continua atual e cai como uma luva na nossa sociedade contemporânea.

Não deixe de ver o vídeo no final dessa pagina, com Paulo Autran declamando o Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa.

Veja a linda crônica Recado de Primavera, escrita por Rubem Braga para Vinicius de Moraes.

Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco.

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foram senão príncipes, todos eles príncipes na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia,
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não… São todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos, mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fim do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa.

Veja o genial poema de Vinicius de Moraes, Balada do Mangue.

Vídeo do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa

Nesse excelente vídeo, Paulo Autran declama de forma genial o Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa.


Paulo Autran declamando o Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa

Veja também o poema Lembrança de Morrer, de Álvares Azevedo.

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Veja o Poema Elegia 1938 de Drummond.

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