Poema Sob o Trópico de Câncer, de Vinicius de Moraes

Poema Sob o Trópico de Câncer, de Vinicius de Moraes

Outra obra prima na poesia de Vinicius de Moraes. O poema Sob o Trópico de Câncer foi publicado no jornal O Pasquim, em 13/05/1970.

Vou deixar o vídeo com o Vinicius de Moraes declamando o poema Sob o Trópico de Câncer no final dessa pagina.

Veja a linda crônica Recado de Primavera, escrita por Rubem Braga para Vinicius de Moraes.

Sob o Trópico de Câncer

Epígrafe: “O câncer é a tristeza das células — (Jayme Ovalle)”.

I

Sai, Câncer
Desaparece, parte, sai do mundo
Volta à galáxia onde fermentam
Os íncubos da vida, de que és
A forma inversa. Vai, foge do mundo
Monstruosa tarântula, hediondo
Caranguejo incolor, fétida anêmona
Carnívora! Sai, Câncer.
Furbo anão de unhas sujas e roídas
Monstrengo sub-reptício, glabro homúnculo
Que empestas as brancas madrugadas
Com teu suave mau cheiro de necrose
Enquanto largas sob as portas
Teus sebentos volantes genocidas
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de matéria plástica
Tu e tuas galochas
Tu e tua gravata carcomida
E torna, abjeto, ao Trópico
Cujo nome roubaste. Deixa os homens em sossego
Odioso mascate; fecha o zíper
De tua gorda pasta que amontoa
Caranguejos, baratas, sapos, lesmas
Movendo-se em seu visgo, em meio a amostras
De óleo, graxas, corantes, germicidas,
Sai, Câncer
Fecha a tenaz e diz adeus à Terra
Em saudação fascista; galga, aranha,
Contra o teu próprio fio
E vai morrer de tua própria síntese
Na poeira atômica que se acumula na cúpula do mundo.
Adeus.
Grumo louco, multiplicador incalculável, tu
De quem nenhum Cérebro Eletrônico poderá jamais seguir a matemática.
Parte, poneta ahuera, andate via
Glauco espectro, gosmento camelô
Da morte anterior à eternidade.
Não és mais forte do que o homem — rua!
Grasso e gomalinado camelô, que prescreves
A dívida humana sem aviso prévio, ignóbil
Meirinho, Câncer, vil tristeza…
Amada, fecha a porta, corta os fios,
Não preste nunca ouvidos ao que o mercador contar!

II

Cordis sinistra
— Ora pro nobis
Tabis dorsalis
— Ora pro nobis
Marasmus phthisis
— Ora pro nobis
Delirium tremens
— Ora pro nobis
Fluxus cruentum
— Ora pro nobis
Apoplexia parva
— Ora pro nobis
Lues venérea
— Ora pro nobis
Entesia tetanus
— Ora pro nobis
Saltus viti
— Ora pro nobis
Astralis sideratus
— Ora pro nobis
Morbus attonitus
— Ora pro nobis
Mama universalis
— Ora pro nobis
Cholera morbus
— Ora pro nobis
Vomitus cruentus
— Ora pro nobis
Empresma carditis
— Ora pro nobis
Fellis suffusio
— Ora pro nobis
Phallorrhoea virulenta
— Ora pro nobis
Gutta serena
— Ora pro nobis
Angina canina
— Ora pro nobis
Lepra leontina
— Ora pro nobis
Lupus vorax
— Ora pro nobis
Tônus trismus
— Ora pro nobis
Angina pectoria
— Ora pro nobis
Et libera nobis omnia Câncer
— Amém.

III

Há 1 célula em mim que quer respirar e não pode
Há 2 células em mim que querem respirar e não podem
Há 4 células em mim que querem respirar e não podem
Há 16 células em mim que querem respirar e não podem
Há 256 células em mim que quer respirar e não podem
Há 65.536 células em mim que querem respirar e não podem
Há 4.294.967.296 células em mim que quer respirar e não podem
Há 18.446.744.073.709.551.616 células em mim que querem respirar e não podem
Há 340.282.366.920.938.463.374.607.431.768.211.456 células em mim que querem respirar e não podem.

IV

— Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que seu marido é portador de um tumor maligno no fígado…
— Meu caro senhor, tenho que comunicar-lhe que sua esposa terá que operar-se de uma neoplastia do útero…
— É, infelizmente a biopsia revela um osteo-sarcoma no menino. É impossível prever…
— É a dura realidade, meu amigo. Sua mãe…
— Seu pai ainda é um homem forte, vai agüentar bem a intervenção…
— Sua avó está muito velhinha, mas nós faremos o possível…
— Veja você… E é cancerologista…
— Coitado, não tinha onde cair morto. E logo câncer…
— Há muito operário que morre de câncer. Mas câncer de pobre não tem vez…
— Era nosso melhor piloto. Mas o câncer de intestino não perdoa…
— Qual o que, meu caro, não se assuste prematuramente. Câncer não dá em deputado…
— Parece que o General está com câncer…
— Tão boa atriz… E depois, tão linda…
— Que coisa! O Governador parecia tão bem disposto…
— Se for câncer, o Presidente não termina o mandato…
— Não me diga? O Rei…
— Mentira… O Papa?…
— E atenção para a última notícia. Estamos ligados com a Interplat 666…
— DEUS ESTÁ COM CÂNCER.

Fim do poema Sob o Trópico de Câncer.

Veja o genial poema de Vinicius de Moraes, Balada do Mangue.

Vídeo do poema Sob o Trópico de Câncer

No vídeo abaixo, Vinicius de Moraes declama o poema. É um excelente vídeo.


Vinicius de Moraes declamando o poema Sob o Trópico de Câncer

Veja também o poema Lembrança de Morrer, de Álvares Azevedo.

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Veja o Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa.

 

Fragmento do poema Sob o Trópico de Câncer de Vinicius de Moraes

 
Veja o Poema Elegia 1938 de Drummond.

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